Sem conseguir muito bem precisar quando começou, mas buscando as recordações mais longínquas que tenho sobre este assunto começo…
Penso que começou na praia, era pequeno, muito pequeno, talvez 3/4/5 anos, o meu pai dizia que me fazia bem ir pra baliza (com dois montes de areia a fazer de postes) pois ajudava-me a crescer e a ter coordenação, basicamente o que acontecia era, eu ficava na baliza até ele se fartar de me chutar bolas, pois fazia bem “aquecer” antes de ir ao banho, supostamente a água pelo simples facto de levar boladas, ou até por pura magia ficava quente… lol… bom a verdade é que era pequeno e que remédio tinha eu de fazer o que me mandavam senão o mais provável era levar nas orelhas :/
Mais tarde cá por Évora surgiu algo que se podia entender como “escolinhas” no lusitano ginásio clube (não tenho muitas recordações sobre esta fase), basicamente eram putos que ao fim-de-semana davam pontapés numa bola no campo pelado, recordo que de algum modo se organizou um jogo contra a equipa do JSC, foi no campo relvado, não me lembro do resultado nem de quem perdeu ou ganhou, lembro sim que joguei como defesa direito e que depois de fazer um lançamento um defesa contrário cortou a bola e eu de primeira quase que fiz golo (lol)… depois desta pequena aventura a escolinha deixou de funcionar contudo umas semanas mais tarde encontrei umas luvas de guarda-redes por casa, enchi-me de coragem e enfrentei o meu pai com uma conversa mais ou menos assim:
eu: TU MENTISTE-ME!!!
pai: eu?! do que falas?!
eu: disseste-me que tinhas sido jogador de futebol mas afinal eu encontrei umas luvas nas tuas coisas!
pai: essas luvas são do teu irmão, ele é que é guarda-redes (no entanto o meu irmão tava na tropa e eu nunca o tinha visto jogar nem tinha noção pra perceber essas coisas)
eu: então olha, tá decidido, EU também quero ser guarda-redes como o mano!!!
A partir desta altura comecei com o meu pai, fervoroso amante do futebol, a ir aos domingos para o pelado do lusitano com um saco de bolas e uns pinos de sinalização, brincadeira esta que começou só comigo mas que em pouco tempo teve um crescimento inesperado e o que começou numa brincadeira entre pai e filho, passou a envolver 10, 20, 30 e até mais putos, posso inclusive afirmar que hoje em dia no distrital de Évora, dificilmente haverá alguma equipa em que nas suas fileiras não conste um ou dois jogadores que passou pelas suas mãos e que jogou comigo naqueles domingos, fizesse calor ou frio, chuva ou sol! Chegou a tal ponto de quando havia a necessidade de fazer um treino especifico de guarda-redes com o meu velhote tínhamos de ir para o campo da casa pia, pois era impossível com tanta criança que também queria jogar. Lembro-me inclusive de estar doente, não puder ir treinar e mesmo assim ele ir treinar/brincar com os outros. Esta situação durou possivelmente uns 4 anos e inclusive dentro do próprio clube ganhamos o nosso espaço e o devido reconhecimento que o meu pai merecia, ou seja, chegamos inclusive a treinar no campo relvado, a um canto para não estragar muito e só quando havia bom tempo… lol era giro e de facto era um grande apoio, até porque TODAS as bolas e material com que treinávamos tinha sido comprado pelo meu pai… mas enfim não vou estar aqui a falar de política!
Voltamos novamente à praia e ao Verão, o meu velhote tinha sido em tempos colega de escola do administrador de Vale do Lobo, para quem não sabe é uma das instâncias mais luxuosas do Algarve, aliás ele não tinha sido bem colega, mais correctamente tinha-o praxado
… voltando ao VDL, este possui um campo relvado e condições de luxo que se encontram em poucos sítios, pode ser medido pois equipas inglesas como o Manchester Utd e a sua própria selecção ali treinam, como muitas outras equipas de todo o mundo. Como óbvio nem todo o zé pode ir para ali, é necessário uma autorização especial que ele sem pensar duas vezes sempre no-la concedeu, todos os dias ia-mos fazer treino específico, por volta das 9 saía da cama, com muita pouca vontade e cheio de mau humor, dê por onde der era Verão e embora ainda não tivesse idade para sair à noite, o que eu queria mesmo era praia e apanhar ondas com a minha super prancha amarela de bodyboard… treinávamos aproximadamente hora e meia, era relvinha e depois de acordar já não me custava tanto até porque no fundo eu gostava daquilo, o que não gostava era do acordar cedo! Estes treinos terão durado, com mais ou menos ano e com mais ou menos vezes por semana uns 7 ou 8 anos! Era como um ritual de Verão em que inclusive tive o prazer de chegar a treinar com a equipa sénior do Louletano e do Farense, quando este ainda fazia parte da primeira divisão.
Bom, dei um salto no tempo enorme mas assim o assunto Verão ficou todo mais ou menos descrito, vou voltar atrás… às escolinhas…
Com os meus 10 ou 11 anos, não consigo precisar ao certo só sei que já era infantil de 2º ano o meu pai e num dia de treino das “escolinhas” disse-me: olha tás a ver aqueles meninos, vai-te juntar a eles que são da tua idade, lembro-me de ter ido directamente para uma baliza que estava a ser feita com duas cadeiras… poois… de facto as “escolinhas” que o meu pai “comandava” tinha melhor condições que os próprios infantis! Juntei-me aos outros meninos de onde fazia parte do grupo um colega de turma, foi fácil a integração até porque para além desse colega, o treinador era tio de um outro colega nosso mas que jogava no rival JSC. Os treinos começaram, a época começou, e uma nova realidade surgiu para mim, os jogos, havia muitas mais equipas e nós íamos jogar contra elas e elas vinham jogar contra nós, Wooho! Já não recordo se joguei muito ou pouco, contra quem joguei se ganhávamos ou perdíamos, lembro-me que fomos ao nacional e recordo um jogo feito no campo 2 do Setúbal, era relvado, quase uma novidade para nós, enfim aventuras daquelas mesmo boas
No ano seguinte como óbvio subi de escalão, iniciados comigo, as coisas eram mais serias, tive um novo treinador que depois acompanhou esta equipa até ao fim, aqui encontrei pessoal muito mais velho, julgo que é neste escalão que se passam 3 anos e como eu estava a começar o meu segundo de futebol havia já miúdos que estavam no seu 5º e tinham uma “estaleca” totalmente superior e diferente da minha, para mim aquilo continuava a ser 22 gajos a correr dentro de um rectângulo e com uma baliza de cada lado e nenhuma bola podia entrar na minha
!!! Este primeiro ano salvo erro não cheguei a fazer nenhum jogo, nem treinei muito, era tudo muito grande e tudo muito novo para mim. No ano seguinte tudo foi diferente, os mais velhos tinham ido para os juvenis, os colegas que tinham ficado nos infantis tinham finalmente subido aos iniciados e o grupo era finalmente o mesmo, já havia rotinas e amizades que nesta altura só beneficiava o nosso futebol, neste ano e no ano seguinte fizeram-se duas equipas, uma para o nacional e outra para o distrital, eu tanto jogava numa como noutra, como não era convocado para nenhuma ou era só convocado para uma delas, era feito alguma rotatividade e em ambos os campeonatos os resultados eram positivos, lembro-me inclusive de em um dos anos, a época para a equipa do nacional já tinha acabado e usaram-se alguns jogadores desta para o distrital, não me lembro do adversário mas havia directores e alguns jogadores que enchiam o peito e diziam: “aí vêm os profissionais jogar contra nós… lol!” Foram bons anos no Lusitano com jogadores muito bons onde se fizeram grandes amizades. Quando subi para os juvenis cometi o erro de mudar do Lusitano para o JSC, sabia que lá não tinha concorrência e que iria jogar sem qualquer problema, no fundo era exactamente o queria, jogar muito, jogar jogar jogar… e foi uma asneira, de facto joguei muito, mas a nível de balneário e de equipa não era o melhor, para um puto que facilmente se influenciava com o que os outros diziam foi difícil manter o nível durante todo o ano. No ano seguinte arrumei as botas e as luvas e optei pelos ténis, comecei o ano como pivot numa equipa de futsal… a experiência teve tanto sucesso que pouco tempo depois acabei por aproveitar o facto do meu irmão ser o massagista do Escouralense para ir treinar lá, acabei por ficar uns meses como terceiro guarda-redes mas na altura deveria estar no segundo ano de juvenis e estar assim no meio de homens sem mais nem menos quase que caído do céu fez-me deixar jogar de vez, não só porque estava completamente fora de contexto como não tinha ainda bagagem psicológica para lidar com tal situação, arrumei então de vez as botas só voltando a usa-las esporadicamente com o meu pai nos jogos aos domingos entre os velha-guardas no campo da casa pia.
Voltando novamente um pouco atrás, sabem que ao escrever vamos relembrando certos assuntos e como isto não é nenhuma tese de mestrado portanto não há necessariamente uma necessidade de manter uma linha temporal, no meu 7º ano a minha mãe comprou-me o primeiro pc e o meu pai nessa altura foi convidado pela AFE para dar o curso de primeiro nível a treinadores e como óbvio isso tinha de ser prejudicial para mim, em que aspecto… bom basicamente tive de escrever no pc um livro inteiro de mil páginas que estava velho como tudo e ele queria usa-lo, tudo isto para além de secante e de me providenciar horas de baba e ranho a reescrever tudo fez-me perceber melhor como se joga o futebol e toda a ciência que há por detrás de um jogo de futebol, o livro chamava-se “Metodologia do Treino Técnico Táctico”, e admito que me ajudou bastante a compreender o jogo, que modificou o meu posicionamento, o modo como vejo o jogo, como o penso, como vejo as falhas em campo, como ajudou e tento comandar os meus colegas. Algo que ajudou bastante a melhorar o meu jogo.
Posso também dizer que toda a minha vida me baseei no grande (pena ser do fcp) Vitor Baia, a sua postura e o papel que desempenhava em campo era inconfundível, sem sombra de dúvida o melhor guarda-redes de sempre, é uma pena ele mais tarde na carreira ter aparecido com aqueles super voos esquisitos e em vez de agarrar a bola preferir fazer defesas para a fotografia, esquecendo-se que estava a influenciar putos que hoje em dia jogam e não são capazes de agarrar uma bola nem que esta lhes vá à figura só porque é mais fixe! Confesso inclusive que durante algum tempo até os golos da minha equipa festejava como ele…
Bom há horas que tou a escrever este texto enquanto vejo televisão e espero pelo jogo do benfica… já perdi algum contexto e pode ser, se tiver vontade e se me lembrar de alguma historia que a adicione, mas basicamente todo este texto era para referir que este ano após convite do grande Mister Luis Patrão para, 7 anos depois, voltar a jogar, tive o azar de no jogo de apresentação por ainda não estar preparado para estas andanças de partir o braço mas ontem tive a minha desforra e contra a mesma equipa com que tinha tido o azar, matei todo os fantasmas e consegui fazer um bom jogo, senti-me bem, só um pouco cansado (os pontapés de baliza com 10kg de roupa e lama em cima dão cabo de mim)… vamos ver de agora para a frente como corre mas neste momento o futebol está-me completamente no sangue e não faço intenção de parar!
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